Dilma Mendes: do luto à luta, uma voz que abre caminhos

No lançamento do Observatório do Futebol Feminino, Dilma Mendes emocionou o público com uma fala poderosa sobre resistência, racismo e transformação. Ao compartilhar sua trajetória, destacou que trocar o luto pela luta foi essencial para abrir caminhos às mulheres negras no esporte. Reconhecida mundialmente como treinadora, Dilma reforçou que o futebol pode ser instrumento de justiça, dignidade e mudança social — inspirando novas gerações a sonhar e ocupar espaços de liderança.

Leia sua fala na íntegra:

“Eu vivi o racismo num tempo em que ele não tinha nome, não tinha denúncia, não tinha lei.
Vivi no meio de uma ditadura , um tipo de violência que não aparecia no corpo — mas que me matou por dentro muitas vezes.
E ninguém sabia…
porque não tinha sangue.

Eu renasci várias vezes sem que o mundo percebesse.
E, talvez, por muito tempo… nem eu percebia.
A gente aprende a sobreviver antes de aprender a viver.
E eu sobrevivi por anos achando que aquilo era normal.
Até o dia em que eu entendi que normal era aquilo que eu merecia — dignidade, respeito, voz, humanidade.

Hoje compreendi que trocar o luto pela luta era a única forma de me manter viva —
e de abrir caminho para as que vieram depois.
Porque no meu tempo, 
Menina preta que liderava era chamada de metida.
Menina preta que falava alto era taxada de problemática.
E menina preta que queria ser atleta… era vista como fora do lugar.

Mesmo quando tentaram apagar.
Eu permaneci… porque eu tinha uma missão que, na época, nem eu entendia.

A justiça que não existiu para a minha geração 
precisa existir agora.
E ela só existe quando a gente transforma leis em práticas.
Quando a gente transforma discursos em ações.
Quando a gente transforma dor em propósito.
Quando a gente entende que estar vivo não basta — é preciso estar vivo com dignidade.

Eu aceitei estar aqui porque eu acredito que a Justiça Desportiva pode ser um instrumento real de transformação social.
Porque o  Futebol sempre foi um reflexo do Brasil.
E tudo aquilo que acontece lá dentro das quatro linhas… acontece aqui fora também.

Eu aprendi cedo que não basta punir.
É preciso prevenir, educar, acolher e reparar.
Reparar — essa palavra que tantos têm medo de pronunciar, porque reconhecer o que foi feito contra nós dói.
Mas dói mais ainda continuar fingindo que nada aconteceu.

O racismo é crime.
Mas mais do que crime, ele é uma ferida aberta no nosso país.
E essa ferida ainda sangra no Futebol nas arquibancadas, nas decisões, no silêncio das instituições, no olhar atravessado que tenta nos diminuir, no comentário “brincadeira” que não tem graça nenhuma.

Mas eu estou aqui porque eu sei que o futebol também pode curar.
Pode juntar.
Pode educar.
Pode transformar.
E eu falo isso não só como uma mulher preta… mas como uma treinadora que foi reconhecida como a melhor treinadora de futebol 7 do mundo por 3 vezes

Uma mulher que saiu do nada, mas que nunca aceitou ser tratada como nada.

Uma mulher que enfrentou arquibancadas hostis, 
campos sem estrutura, piadas, desrespeito…
e ainda assim venceu.

Eu descobri que a liderança feminina no Futebol não é apenas sobre tática.
É sobre coragem.
É sobre visão.
É sobre construir um time quando o mundo inteiro quer que você jogue sozinha.

É sobre pegar meninas que já chegam derrotadas pela vida…
e mostrar que elas podem ganhar muito mais do que um campeonato.
Podem ganhar uma identidade.

Eu olho para trás e vejo que minha história nunca foi só minha.

Quando eu entro em campo, entro junto com todas as mulheres negras que foram negadas.
Com todas as meninas que desistiram porque não tinham apoio.
Com todas as atletas que precisaram provar três vezes mais para receber metade do reconhecimento.
Com todas as profissionais brilhantes que nunca chegaram ao topo porque alguém decidiu que esse topo não era para elas.

Por isso, o que eu trago aqui não é só a minha história.
É a história de uma geração inteira que não foi protegida.
De uma geração inteira que cresceu acreditando que ser forte era obrigação — e não escolha.
De uma geração que precisou engolir o choro para continuar em pé.
E é por isso que eu sigo.
Forte, presente, viva.
Não por heroísmo — mas por necessidade.

Que as meninas de hoje olhem para mim e saibam que elas podem sonhar… e viver o sonho.
Que elas podem liderar.
Que elas podem ocupar cadeiras de decisão.
podem ser treinadoras, árbitras, dirigentes, gestoras, juízas, narradoras, comentaristas.

Mesmo num país que ainda dizem que jogo é pra homens .
que as instituições entendam que representatividade não é bandeira — é responsabilidade.
Não é foto — é permanência.
Não é discurso — é orçamento, é plano, é política pública, é compromisso.

Eu acredito que juntos, com coragem e justiça, podemos mudar o jogo.
E mudar o jogo é isso:
É reconhecer o que foi feito.
É proteger quem está vindo.
É educar quem está olhando.
É punir quem insiste em ferir.

É transformar o Futebol  em lugar seguro, justo e digno.
Dentro e fora das quatro linhas.
E eu vou continuar lutando…
por todas nós.

Pelas que vieram antes.
Pelas que estão aqui.
E pelas que ainda virão.

Porque a história continua onde tentaram nos silenciar.
A história começa agora — com consciência, coragem e justiça.”

Dilma Mendes é conselheira do Observatório do Futebol Feminino, referência mundial no futebol feminino e símbolo de resistência negra e nordestina, transformando o esporte em instrumento de justiça e equidade.

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