Às vésperas de o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2027, o cenário do futebol de mulheres no país vive um momento de profundas contradições, oscilando entre recordes de audiência na mídia e a perda de patrocínios estratégicos em competições nacionais. Para debater essa realidade, apresentamos uma entrevista exclusiva com a professora e pesquisadora Soraya Barreto, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Na conversa, a especialista analisa o conceito de “efeito sanfona” na cobertura esportiva , discute o impacto estrutural esperado para o Mundial de 2027 e lança luz sobre a potência do futebol no Nordeste, destacando o papel das torcedoras, atletas e movimentos regionais como agentes fundamentais de resistência e desenvolvimento da modalidade longe dos grandes eixos tradicionais
1. Mesmo com os avanços registrados em sua análise comparativa, o cenário do futebol de mulheres no Brasil às vésperas de sediar a Copa de 2027 apresenta contradições agudas: celebramos recordes de visibilidade e audiência, mas assistimos a uma retração do apoio institucional, com a perda de patrocinadores estratégicos no Campeonato Brasileiro. À luz do conceito de ‘efeito sanfona’ ,em que o interesse midiático se expande nos megaeventos e se retrai imediatamente após , qual é o papel dos veículos de comunicação e da própria crítica midiática para que a visibilidade da modalidade deixe de ser uma intermitência e se torne um compromisso estrutural permanente, garantindo que o futebol de mulheres sobreviva independentemente da lógica de mercado que dita o interesse apenas em grandes eventos?
Resposta: O conceito de efeito sanfona é preciso e foi um marcador importante para entender a história de visibilidade na modalidade. Nos mega eventos como Olimpíadas, Copa do Mundo, etc., a mídia “descobre” o futebol de mulheres com o entusiasmo de quem acaba de inventar a roda. As reportagens se multiplicam, os patrocinadores temporários aparecem, as audiências disparam. E no mês seguinte ao evento, a sanfona se fechava totalmente. O que vemos em de 2019 (com o devido peso que a pandemia teve) é uma mudança, mesmo que tímida, porém importante de cenário. Tem havido uma visibilidade linear, especialmente com a entrada do brasileirão feminino na grade da Globo, desde 2023. Embora só a fase do mata mata. Dados do IBOPE Repucom mostram que o Brasileirão Feminino atraiu 92 marcas em 2025, com entrada de peso como Amazon, Hyundai, Itambé e Uber em 2026. Isso é real e relevante. Mas também é verdade que o campeonato perdeu patrocinadores estratégicos, sinal de que o capital privado ainda trata a modalidade como projeto piloto, não como ativo permanente.O problema não é apenas de volume de cobertura, mas de natureza da cobertura. Enquanto a mídia tratar o futebol de mulheres como evento e não como modalidade de importância no agendamento midiático, o efeito sanfona será a regra, mesmo que de forma bem mais amena. Temos que celebrar a conquista, de , por exemplo, jornais televisivos de importância como o Globo Esporte hoje em dia apresentarem os resultados dos jogos e rodadas do brasileirão feminino de forma constante. A crítica midiática tem um papel aqui que vai além de denunciar a ausência, precisa pautar a estrutura. Não basta nos perguntarmos “por que não transmitem todos os jogos?”, mas “por que transmitem como se fosse um favor, uma concessão?”.O que falta é um compromisso editorial estrutural e isso não se resolve com participação de mercado. Exige política pública de comunicação, cotas de transmissão, e uma pauta permanente que descole a visibilidade da lógica do patrocínio. Enquanto a presença do futebol de mulheres na mídia depender do budget de marketing e não de linha editorial, a sanfona continuará tocando.
2. Falando em Copa do Mundo, existe uma ‘memória ideal’ que a senhora gostaria que o público tivesse do Futebol de Mulheres ao final da Copa de 2027?
Resposta: Se eu pudesse escolher uma memória ideal da Copa de 2027, seria obviamente o Brasil campeão. Levar a Copa em casa, além do aspecto afetivo, acredito que teria um poder transformar em políticas públicas. Seria o público entender finalmente que o futebol de mulheres não é novidade, não é promessa, não é futuro, é presente! Quero que, ao final da Copa, uma menina de 8 anos em Surubim ou em São Paulo tenha a mesma certeza de um futuro possível no futebol. A memória que precisamos construir não é a de um espetáculo pontual, mas a de uma possibilidade de carreira, paixão, vivência real e estruturada. Que a Copa de 2027 seja lembrada não como o auge, mas como o ponto em que a sociedade brasileira parou de tratar o óbvio como exceção. O deslocamento que quero ver, é que a mídia saia da narrativa de superação individual para a de direito coletivo. Essa é a virada de chave que uma Copa pode catalisar, mas só se a cobertura jornalística fizer esse framing, e não o da Cinderela com chuteiras comumente mobilizado.
3. Em sua pesquisa ‘Mulheres nordestinas na arquibancada: territórios de resistência’, a senhora lança um olhar sobre o futebol a partir de um território específico. Como a vivência das torcedoras nordestinas, que frequentemente enfrentam uma dupla marginalização, pelo gênero e pela centralização do eixo esportivo no Sudeste, contribui para entendermos a ressignificação das arquibancadas como espaços de luta? O que essa perspectiva nordestina nos ensina sobre a forma como o futebol de mulheres pode ser construído organicamente, longe da influência dos grandes conglomerados midiáticos?
Resposta: Essa pergunta toca no coração de parte das minhas pesquisas. A torcedora nordestina vive uma dupla marginalização que é geográfica e de gênero ao mesmo tempo. O eixo Rio-São Paulo concentra não só os grandes clubes e a grande mídia, mas também o imaginário do que é ser torcedor/a no Brasil. A mulher nordestina na arquibancada é duas vezes deslocada, por ser mulher num espaço historicamente masculino e por torcer de uma região que a mídia esportiva trata como coadjuvante. Observar esta perspectiva nos ensina que o futebol de mulheres se desenvolve longe dos grandes conglomerados midiáticos, onde tende a ser mais orgânico, mais comunitário e menos refém da lógica de mercado. Veja o que está acontecendo agora, a Copa Maria Bonita no Nordeste bateu recordes de engajamento e audiência em 2025. A Copa Rainha Marta Nordeste foi lançada em novembro de 2025 como política pública regional. Em Pernambuco, o primeiro Centro de Desenvolvimento do Futebol Feminino do Norte-Nordeste foi inaugurado. Isso não aconteceu porque a Globo ou a grande mídia pautaram. Aconteceu porque os movimentos de mulheres, as gestões estaduais e as próprias atletas nordestinas organizaram. O que a torcedora nordestina nos ensina é que a ressignificação da arquibancada como espaço de luta não depende da câmera, apesar de ser fundamental que a política paute políticas públicas, mas depende do corpo presente, da ocupação. É um feminismo territorializado que desafia tanto o patriarcado do futebol quanto o centralismo midiático do Sudeste.
4.A Copa de 2027 será uma oportunidade de descentralizar o desenvolvimento da modalidade no Brasil? Como a senhora avalia a política pública atual e se o discurso de ‘valorização do futebol de mulheres’ tem chegado com a mesma força nas bases do Nordeste, ou se estamos apenas repetindo o padrão de visibilidade de ‘vitrine’ sem o devido investimento estrutural?
Resposta: Sobre isso, é fato, haverá partidas no Nordeste, mas sinceramente não sei se isso implicará em desenvolvimento direto. A questão que me faço é “o que sobra depois que o Mundial acaba?” Como diria o mestre Ariano Suassuna eu sou uma realista esperançosa, como disse na pergunta anterior, tem havido uma movimentação interessante no eixo nordestino com a criação de competições que podem ajudar o crescimento da modalidade no estado, tais como a Copa Rainha Marta Nordeste, para o futebol amador de mulheres, e Copa Maria Bonita, com times profissionais, somado ao Centro de Desenvolvimento do Futebol Feminino em Pernambuco, que já está formando 200 meninas a partir dos 13 anos. Acredito que essas ações já são resultado da vinda da Copa do Mundo de 2027 para o Brasil. Vimos que a premiação do Brasileirão Feminino aumentou significativamente em 2026, são avanços. Porém o discurso de valorização ainda não chegou com a mesma força nas bases. A pesquisa que fiz sobre a Seleção Brasileira e o futebol de mulheres no Nordeste mostra um fosso entre o que se anuncia e o que se entrega. As políticas públicas de esporte no Brasil historicamente tratam o futebol de mulheres como apêndice, um parágrafo dentro de uma política desenhada para homens.A pergunta é se a Copa de 2027 está sendo usada para desenhar políticas públicas estruturante ou apenas para maquiar indicadores? O que eu vejo de positivo é a articulação dos estados nordestinos o que é um aprendizado importante. Mas não adianta a Seleção jogar na Arena de Pernambuco se as meninas da Região Metropolitana do Recife e do interior continuarem sem categorias de base e os famosos peneirões nos times locais , sem transporte, sem bolsa, sem visibilidade nos campeonatos locais.Valorização de vitrine não é valorização. É exposição, e exposição sem estrutura vira exploração simbólica.
APROFUNDE OS ASSUNTOS ABORDADOS NA ENTREVISTA:
- Copa do Mundo do futebol de mulheres: uma análise de gênero sobre a cobertura da Cazé TV. https://periodicos.ufmg.br/index.php/fulia/article/view/56012
- A mídia esportiva e as Copas do Mundo do Futebol de Mulheres :da invisibilidade à visibilidade
https://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/view/147183 - (In)visibilidades e Dissidências no Esporte: Representações de Gênero em Jogo.
https://www.scielo.br/j/ref/a/CHHpt5FC6SBL3kD3QHj97Ry/?format=html&lang=pt - Futebol de mulheres na agenda da mídia: uma análise temática da cobertura da Copa do Mundo de 2019 em sites jornalísticos brasileiros.
https://scholar.google.com/citations?view_op=view_citation&hl=pt-BR&user=Y8R9r_MAAAAJ&citation_for_view=Y8R9r_MAAAAJ:KlAtU1dfN6UC