O dia 16 de novembro de 1991 é extremamente significativo para a história do futebol mundial. Nessa data teve início, na China, a I Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA — competição que, no futebol masculino, já era realizada desde 1930. Embora o futebol de mulheres existisse há décadas em diferentes países, sob variadas formas de organização e regulamentação, ele ainda não era plenamente reconhecido pela entidade máxima do futebol mundial.
Foi apenas em 1988 que a FIFA organizou sua primeira competição internacional voltada ao futebol de mulheres: o Torneio Experimental da China, concebido como uma espécie de teste para avaliar a viabilidade de um campeonato mundial da modalidade. Decorridas quase quatro décadas, torna-se urgente a implementação de ações concretas de reconhecimento às mulheres que vestiram a camisa da seleção brasileira nessas competições inaugurais. Essa urgência se justifica pelo fato de que, durante muitos anos, as vozes e as histórias dessas jogadoras foram silenciadas, relegando-as ao anonimato, apesar de seu papel central na construção e no desenvolvimento do futebol no Brasil.
Encontra-se em tramitação em Brasília o Projeto de Lei nº 656/2026, que propõe a concessão de premiação às jogadoras que integraram a seleção brasileira no Torneio Experimental da FIFA (1988). Trata-se de uma iniciativa de grande relevância histórica e política. Contudo, entendemos que tal reconhecimento deve também contemplar as atletas que representaram o Brasil na I Copa do Mundo de Futebol Feminino (China, 1991), por constituírem a primeira seleção brasileira a disputar um Campeonato Mundial, bem como da II Copa do Mundo de Futebol Feminino (Suécia, 1995). Esta última competição teve um significado particularmente importante, pois foi a partir dela que a nossa seleção garantiu sua classificação para os Jogos Olímpicos de Atlanta (1996), edição que marcou a inclusão do futebol de mulheres no programa olímpico.

Seleção de 1991 – Acervo pessoal de Márcia Tafarel
Sabemos que muitas outras mulheres enfrentaram enormes barreiras para permanecer no futebol e que igualmente são merecedoras de processos de reconhecimento e reparação. A ampliação da abrangência do presente projeto, contudo, busca demarcar momentos históricos fundamentais no processo de estruturação internacional da modalidade.
Queremos registrar nossa saudação a todas as pioneiras que abriram caminhos para as novas gerações, pois honramos seu protagonismo na construção do futebol de mulheres no Brasil e enaltecemos sua contribuição para que a modalidade se tornasse uma realidade para todas aquelas que desejassem praticá-la. Entendemos que ressaltar esse protagonismo significa enfrentar uma dívida histórica com as mulheres que atuaram dentro das quatro linhas em um contexto marcado por profundas desigualdades de gênero, escassez de apoio institucional e invisibilidade midiática, mas que, ainda assim, dedicaram suas trajetórias à afirmação e ao desenvolvimento do futebol de mulheres em nosso país.
Ampliar esse reconhecimento para além das competições oficiais representa não apenas um gesto simbólico, mas um ato de justiça histórica, voltado à valorização da memória esportiva nacional e ao enfrentamento das desigualdades de gênero que marcaram a trajetória das mulheres no futebol brasileiro.

Seleção de 1995 – Acervo pessoal de Márcia Tafarel