Por dentro do Relatório Brasileiro Feminino A1 2025 – Entrevista com a Prof. Leda Maria da Costa.

Pergunta 1:  Professora, o relatório produzido pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte e pelo Observatório Social do Futebol destaca que oito grandes clubes (como Corinthians, Flamengo e Internacional) nunca utilizaram seus estádios principais na 1ª fase de 2025. Considerando sua pesquisa sobre a relação afetiva de “topofilia”* entre torcedor e estádio, como essa “itinerância” forçada em estádios alternativos e CTs impacta a formação de uma cultura torcedora sólida no futebol feminino?

          [*Topofilia, conceito cunhado pelo geógrafo Yi-Fu Tuan, é o vínculo afetivo profundo e a afinidade entre pessoas e lugares]

A relação entre topofilia e itinerância apareceu de forma evidente no uso dos estádios durante a primeira fase do Campeonato Brasileiro Feminino de 2025, que contou com a participação de 16 clubes. Mesmo clubes importantes, com torcida grande, clubes centenários, com uma visibilidade muito grande, em nenhum momento fizeram uso de seus estádios principais, aqueles tradicionalmente usados em jogos profissionais. Algumas equipes chegaram a jogar em  três ou quatro locais distintos. 

Esse cenário impacta diretamente a formação de uma cultura torcedora no futebol feminino. A constante mudança de local dificulta a presença do público, especialmente considerando os desafios de mobilidade urbana e, além disso, a pouca informação que costuma ser disponibilizada sobre os jogos. A ausência de um espaço fixo compromete a criação de vínculo e pertencimento, fundamentais para a consolidação da torcida. Uma combinação feita para que haja uma grande possibilidade de baixa adesão de público aos jogos. Não se trata de hierarquizar estádios ou atribuir menor valor a determinados espaços, mas sim de destacar o problema da falta de um local estável Mas, esse não é um impacto qualquer, considerando que no futebol a presença da torcida é muito importante e a torcida não se cria do nada. A formação de torcida é um processo gradual, que depende de tempo, constância e de um espaço físico que funcione como referência. O estádio é um lugar central para a construção de laços afetivos entre torcida e clube. Isso ainda falta no futebol feminino. Parafraseando Virginia Woolf em “Um teto todo seu”: Falta um teto todo seu do futebol feminino. 

Pergunta 2: Os dados do Relatório mostram que o Corinthians detém, sozinho, uma média de público (6.812) que representa cerca de 80,77% do público total das rodadas em que é mandante. Na sua visão, como o futebol brasileiro pode equilibrar essa balança para que o sucesso de público não fique restrito a apenas um projeto de gestão, mas se espalhe pelo menos pela estrutura da Série A1?

O Corinthians conquistou o Campeonato Brasileiro pela oitava vez e isso não é um acaso. É um clube que já, há alguns anos, tem investido no futebol feminino de maneira consistente- não perfeita, mas consistente- e tem tido retorno com títulos e uma equipe competitiva, inclusive com uma vitrine de grandes jogadoras, base da Seleção Brasileira. Conquistar títulos é algo que chama a atenção das torcidas e a presença da torcida do Corinthians foi uma constante no campeonato. É uma torcida grande, uma torcida nacional, uma torcida que costuma acompanhar o clube como uma totalidade.  O time jogou também em estádios em que a torcida tem uma relação afetiva e histórica com o espaço.

Alguns times estão sentindo, de algum modo, um incômodo com a hegemonia do Corinthians. E é para incomodar mesmo! Incomodar para forçar que outros times saiam do marasmo e do descuido com o futebol feminino e entendam ele como uma parte importante da sua vida clubística. É bom para que mais clubes comecem a entrar em uma dinâmica competitiva e não pensando apenas na série A. 

Esse é um trabalho de longo prazo que implica, de fato, entender que o futebol feminino é futebol. É preciso fortalecer as equipes em diferentes séries, a participação dos clubes, federações, da CBF, com investimentos e compromissos que não se resumam a frases bonitas ou ao fato de que em 2027 o Brasil irá receber a Copa do Mundo Feminina.

As mulheres precisam ter no futebol feminino um horizonte de expectativas em que caiba a realização profissional, seja como jogadora, seja como técnica, seja como árbitra ou dirigente, sabe? É preciso um trabalho gradativo, mas sobretudo comprometido com o futebol feminino. 

Pergunta 3: O levantamento aponta que quatro clubes da elite ainda não possuem páginas exclusivas no Instagram para suas equipes femininas e muitos criaram perfis apenas anos após a estreia na Série A1. Como a senhora analisa essa negligência digital por parte dos clubes, dado que 70,1% do público utiliza as redes como principal fonte de informação sobre a modalidade?

Um dos dados mais relevantes observados na pesquisa foi a invisibilização digital (falta de divulgação online). Hoje é difícil pensar qualquer tipo de atividade que não passe pelas redes sociais. É um veículo de comunicação fundamental e não à toa, todos os clubes da série A do masculino, claro que têm redes sociais. E se comunicam entre clubes, torcida e até atletas. Me espantou, por exemplo, o Bahia, um time que aposta em inclusão, não ter um canal exclusivo para o seu time feminino. 

A presença digital tem potencial para dar visibilidade ao futebol feminino.  Se você junta a itinerância dos estádios com a invisibilização digital temos uma equação simples: dificuldade grande de ida aos estádios e presença de público. Como vamos querer ter público sem ter informação? Sem planejamento para que esse público possa chegar aos locais onde os jogos são realizados? Isso gera inverdades como “Ninguém gosta de futebol feminino” ou “Futebol feminino não gera investimentos”. 

É um ciclo que se retroalimenta: a falta de visibilidade gera baixo público, que por sua vez é usado como justificativa para novos cortes e desinvestimentos. Isso reforça a necessidade de planejamento e compromisso de longo prazo. 

Pergunta 4: Uma das dificuldades relatadas no estudo foi a falta de padronização dos boletins financeiros, com federações (como a FPF de São Paulo) classificando o Brasileiro Feminino como “Amador”. Para além das quatro linhas, o que essa desorganização documental revela sobre a percepção institucional das federações em relação à profissionalização das mulheres?

A falta de padronização na organização do campeonato está relacionada, em parte, às diferentes práticas das federações. Essa desorganização também se reflete na documentação e no acesso a informações oficiais. A classificação do futebol feminino como “amador” em documentos institucionais chama atenção e levanta questionamentos importantes. Esse enquadramento não condiz com a realidade das atletas, que atuam profissionalmente. Então, por que o futebol feminino segue classificado como amador? Isso é bastante preocupante. 

Além disso, há dificuldades no acesso ao próprio site da CBF, com instabilidades frequentes e demora na disponibilização de documentos. Esses fatores indicam uma fragilidade estrutural na gestão da informação. E isso quando falamos de série A! Imagina investigar campeonatos locais! 

Pergunta 5: O relatório documenta que as redes de televisão foram responsáveis por 25 pedidos de alteração de partidas (data, local ou horário). Como conciliar os interesses comerciais das transmissões, que garantem visibilidade, com a necessidade de estabilidade logística para as atletas e para o torcedor que planeja ir ao estádio?

Um dos grandes dilemas das transmissões esportivas e da própria transformação do futebol (e dos esportes em geral), é a transmissão televisiva. Se por um lado a transmissão na TV trouxe uma certa organização para os jogos, por outro, fez com que os jogos ficassem à mercê dessa programação. 

Conciliar uma boa organização da programação do canal com o cronograma de um campeonato é difícil, mas é possível. Um bom exemplo disso é o campeonato masculino brasileiro A1. Mesmo que você tenha uma dificuldade de público em alguns momentos pelo horário, por exemplo, ainda assim, o campeonato transcorre. No caso do futebol feminino, o número elevado de alterações no calendário indica instabilidade na organização e evidencia as falhas no planejamento. 

Um campeonato bem organizado já parte do princípio de que vai ter que conciliar horário de jogo com transmissão. Isso já está dentro da logística de organização do campeonato. O campeonato feminino de 2025 o que ele mostrou é que é uma logística tão assim, como é que eu vou dizer, instável, que parece que não se tem em mente alguns princípios básicos de organização de um campeonato esportivo. Um deles é esse: combinar minimamente com a televisão, né, quais partidas vão ser transmitidas, se vai ter horário, qual vai ser o horário, qual vai ser isso. Então eu acho que é possível conciliar, sim, com o mínimo de organização para não prejudicar a logística das atletas, para não prejudicar o planejamento dos torcedores, sejam para assistirem a TV, assistindo na TV ou ir aos estádios. Então eu acho que essa é uma questão de planejamento mesmo

Pergunta 6: Você consegue apontar recomendações que poderiam ser feitas para impulsionarmos o futebol de mulheres no Brasil de modo a termos atletas e equipes valorizadas, torcidas maiores e mais participativas e melhores audiências? 

Estamos em um momento único para o futebol de mulheres no Brasil. Esse momento tem uma relação muito forte com a realização da Copa do Mundo de 2027. Então esse é o momento do país do futebol se transformar de fato no país do futebol. Até então ele era o país do futebol masculino e mesmo assim por conta da Seleção Brasileira. Acho que está na hora do Brasil de fato ser um país do futebol de maneira mais completa.
E esse modo seria tornar o futebol de mulheres mais forte, com mais investimentos. Eu acho que inevitavelmente tem que passar por mais cobrança das federações, sobretudo a CBF e a Conmebol. Algumas leis da Conmebol, como a lei da obrigatoriedade de se ter um time feminino, produziu melhoras no panorama do futebol feminino no Brasil. Essa lei foi importante, assim como é preciso também ter outras leis, leis que protejam as mulheres em termos de trabalho, leis que não permitam que clubes desmanchem suas equipes femininas de um dia para o outro. Tem que se criar um sistema que ampare legalmente as jogadoras para que elas tenham mais segurança como profissionais da bola. Um maior investimento dos clubes e, inevitavelmente, dos clubes grandes. Esses clubes maiores, com grandes torcidas têm um compromisso de reparação com o futebol de mulheres no Brasil. É importante que o futebol de mulheres no Brasil entenda que o cenário mundial se modificou muito. Basta olhar para o  lado. Temos que olhar o futebol de mulheres como um fenômeno ainda em construção e que, portanto, é absolutamente fascinante por isso mesmo. O futebol de mulheres pode reencantar o futebol.  

Pergunta 7 : Muitas vezes o futebol de mulheres é comparado ao masculino. Para encerrar, como você visualiza a construção de uma identidade própria para a modalidade no Brasil, e o que ela pode oferecer de inovação e reencantamento com o esporte?

O futebol feminino deve ser compreendido como um campo em construção, com potencial para criar novas formas de organização e relação com o público, inclusive para as torcidas.  É importante pensar que público é esse que quer ver as mulheres jogando. Não precisa ser o mesmo público do masculino, que também é um público que tem vários vícios que precisam ser modificados. Eu recomendaria fortemente que a gente não se fixasse no futebol masculino como comparação constante, aliás não como comparação, mas como parâmetro ao qual a gente quer atingir. Podemos construir um espaço novo, democrático e que reencante novamente essa prática tão maravilhosa que é o futebol. Eu tinha tudo para não gostar de futebol, mas amo futebol. Todas as mulheres teriam tudo para não gostar de futebol, pois ele foi construído no Brasil para odiar as mulheres,  mas o futebol é muito legal! Torcer é muito legal! A emoção que o futebol provoca, uma jogada bonita, um gol no último minuto… tudo isso é uma composição muito única! 

Para que o futebol seja um direito acessível às mulheres em todos os níveis possíveis é preciso que haja planejamento, participação das mulheres em todos os níveis de decisão e participação e que as mulheres sejam consultadas sobre o que queremos e como elas querem alicerçar e consolidar esse futebol de mulheres no Brasil.

ACESSE O RELATÓRIO COMPLETO

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