Existe uma forma silenciosa de desorganizar uma modalidade esportiva: não registrar. Não publicar tabela, não divulgar calendário, não reservar uma linha no menu do site, não transmitir competições, não dar a devida importância. Nada disso aparece como decisão estática e elaborada. Mas, ainda assim, não há ata, não há comunicado, não há responsável, não há culpados. O efeito, por outro lado, é concreto. Por exemplo, no caso do futebol de mulheres, quando ele não aparece nos canais oficiais das federações, deixa de existir como categoria administrável e passa a existir apenas como acontecimento eventual, uma notícia que sobe na home quando há foto boa e desce na semana seguinte. Isso não conforma uma categoria, uma modalidade.
O Observatório do Futebol Feminino mapeou os sites das 27 federações estaduais entre abril e agosto de 2026 procurando duas coisas simples: uma seção dedicada ao futebol feminino e um calendário da temporada corrente. Não é um pedido sofisticado. É o mínimo que qualquer entidade que organiza uma competição precisa ter publicado para que atletas se animem a jogar, meninas se inspirem a serem jogadoras,, clubes se planejem, jornalistas cubram e patrocinadores decidam apoiar.
Dentre todas as verificadas, a falta de estrutura virtual é marcante. Muitas tanto em relação ao futebol feminono quanto ao masculino, mas de fato, quando falamos de mulheres, a coisa piora muito. Apenas sete federações têm aba própria dedicada à categoria. Vinte não têm. E mais ainda, três em cada quatro entidades do país não reservam nenhum espaço fixo, por menor que seja, ao futebol feminino em seus sites oficiais. Aprofundando um pouco mais, o mapeamento revelou quatro situações distintas, e a diferença entre elas importa.
As que cumprem o mínimo:
Aquelas federações que ao menos têm aba específica e calendário confirmado para 2026.
As que planejam sem nomear:
Aquelas federações que publicaram calendário, mas não criaram seção própria. É um caso interessante porque revela que a competição existe, a data está marcada, alguém dentro da federação trabalhou naquilo. O que falta é o reconhecimento formal de que esse trabalho constitui uma frente permanente, e não um item avulso na agenda geral.
As de presença ambígua:
As que registram o futebol feminino de um jeito que quase não conta como registro. São aquelas nas quais a modalidade aparece na aba de competições não profissionais, dividindo espaço com o intermunicipal masculino e alguns campeonatos menores sem identidade própria. Ou ainda, há aquelas nas quais o futebol feminino não consta na aba de competições e só é localizável nas tabelas de jogos, ou seja, existe no calendário operacional e não existe na estrutura institucional do site. Nos deparamos com casos onde apenas categorias sub-15.sub 17 e sub 20 têm registro, mesmo sabendo que no Estado existem times na série A2, por exemplo, ou seja, categorias profissionais.. Em muitos casos, temos a notícia de algumas partidas, mas nada além disso.
As lacunas graves!
Mesmo federações fortes com times de destaque nacional nas categorias A1 e A2, encontramos sites que não têm aba nem calendário. Essas representam 45% do total das federações.
A partir dessas análises o que constatamos são problemas reais com potencial de desestimular e desmobilizar o futebol de mulheres no Brasil. A que pese os avanços na modalidade, um sobrevoo em 2026 aponta que mesmo federações que no passado tiveram uma trajetória de melhor trabalhar a visibilidade das mulheres em campo, neste ano descontinuaram a prática. Minas Gerais, segunda federação com mais times que estarão na série A1 em 2027 estão com dados congelados desde 2025. O Amazonas, casa do 3b da Amazônia e do Itacoatiara, ambos na série A2 de 2026, interrompeu um histórico de quatro anos de informação disponíveis. Alagoas reduziu de um calendário com várias categorias para um único torneio sub-15, mesmo sabendo que no Estado temos times como o Uda (série A2 em 2026). São trabalhos que se encerram sem explicação. Às vésperas de uma Copa do Mundo no Brasil.
Outro fator que merece destaque é a insistência em tratar o futebol de mulheres como não profissional ou amador. Em Santa Catarina vemos o senguinte cenário: a federação cumpre os dois requisitos formais- aba específica e calendário atualizado em 2026-, mas ainda assim merece atenção: o futebol feminino aparece classificado entre as competições não profissionais. O Amapá faz o mesmo. A informação está lá, o planejamento existe, mas a nomenclatura estabelece uma hierarquia.
Como observou a professora e pesquisadora Leda Maria da Costa em entrevista ao Observatório, as categorias administrativas não são neutras. Elas definem que tipo de investimento é cabível, que tipo de contrato é possível, que tipo de expectativa é razoável. Chamar de não profissional aquilo que se pretende profissionalizar é uma barreira simbólica com consequências práticas, e essa barreira aparece justamente em estados que estão fazendo o trabalho.
Cabe ainda distinguirmos entre transparência e acessibilidade. São Paulo, a federação mais forte do país, com times com histórico consolidado como Corinthians, Ferroviária, São Paulo, Palmeiras, Santos e RedBull Bragantino, tem calendário, competição, histórico e estrutura, e ainda assim a informação sobre a modalidade é de difícil acesso no site. É preciso investir tempo para encontrar o futebol de mulheres. Mato Grosso escancara a mesma lógica em outra escala: os jogos estão nas tabelas, mas a modalidade não aparece onde alguém procuraria por ela. Publicar não basta se o dado não é encontrável. Uma federação que exige do usuário três níveis de menu e conhecimento prévio da nomenclatura interna está, na prática, comunicando apenas com quem já está dentro. Fora dali, o efeito é idêntico ao da ausência.
A desigualdade regional, preocupa e persiste, formando um verdadeiro deserto informativo . As maiores lacunas de informações se concentram no Norte e no Nordeste. Importantes exceção são Bahia, Ceará, Pernambuco, Pará, Rondônia e Tocantins. Entretanto, Piauí, Roraima, Paraíba, Rio Grande do Norte, Maranhão, Amazonas, Acre e Amapá formam um bloco em que a informação básica praticamente não circula. Isso tem custo direto: dificulta o registro de atletas, inviabiliza a atração de investimento regional e torna impossível qualquer avaliação sobre o uso de recursos públicos e privados destinados à modalidade naqueles estados. Tal qual observado, a desigualdade regional do futebol feminino brasileiro começa antes do campo.
Vale registrar que Paraíba e Acre publicam pouco ou nada sobre qualquer modalidade, masculina ou feminina, o que demonstra uma fragilidade ainda maior em todo o ecossistema do futebol. Nem toda lacuna é sexismo direto; parte é precariedade institucional generalizada. Mas a distinção importa pouco para a atleta que precisa saber quando começa o estadual, e a precariedade nunca é distribuída de forma igual: onde a estrutura é frágil, a frente mais fragilizada e menos financiada é a primeira a sumir: o futebol feminino.
A história que as federações e os clubes contam sobre o futebol de mulheres.
Em meio às buscas nos sites oficiais das federações e dos próprios clubes de futebol encontramos uma lacuna permanente. Ao percorrer as páginas institucionais dessas entidades, a história narrada é sempre a história do futebol masculino. Os fundadores, os títulos, os craques, as datas comemorativas, as galerias de fotos, a memória oficial inteira é escrita como se futebol fosse sinônimo de homens jogando bola. As mulheres, quando entram, entram como novidade recente, como aba a ser criada, como pauta a ser incluída, uma notícia aqui e ali, mas nunca como parte constitutiva daquela instituição.
Isso não é acidente de redação. É a mesma operação que produz a aba ausente, o calendário não publicado e a rubrica de não profissional, só que aplicada ao passado, com implicações sentidas no presente. Uma federação ou um clube que narra cem anos de futebol sem mencionar que mulheres jogaram nesse território, que foram proibidas por decreto entre 1941 e 1979, e mesmo assim resistiram e nunca deixaram de se organizar em torno da bola,muitas vezes sem apoio institucional nenhum, não está apenas esquecendo. Está definindo quem é o sujeito legítimo daquele esporte. Uma instituição que não reconhece uma trajetória no passado, dificilmente revolucionará o futuro do futebol no Brasil. Um futuro onde, finalmente, reconhecemos que o país do futebol tem meninos e meninas, homens e mulheres jogando.
Aqui, mais uma vez, às vésperas da Copa do Mundo Feminina da Fifa no Brasil. É tempo de transformar narrativas. É tempo de revisitar práticas. É tempo de inserir o futebol de mulheres no futuro permanente.
Por que isso importa?
Dado público não é burocracia. É a condição de possibilidade de tudo o mais.
Sem calendário publicado, a atleta, os clubes, as torcidas, não organizam sua vida em torno da temporada, o que empurra a modalidade de volta para o amadorismo compulsório. Sem série histórica, não se avalia política pública nem se cobra continuidade de gestão. Sem seção própria, o patrocinador não encontra a modalidade quando procura. Sem registro, não há memória, e sem memória cada nova gestão recomeça do zero, refazendo o que já foi feito e perdendo o que já havia sido conquistado.
A Lei Geral do Esporte e os mecanismos de financiamento público partem do pressuposto de que as entidades produzem e divulgam informação sobre suas competições. Quando isso não acontece, a fiscalização social fica desfocada e a própria federação perde o instrumento que a permitiria demonstrar trabalho.
A transparência é o primeiro passo da profissionalização, e é o mais barato. Criar uma aba no site custa uma tarde de trabalho. Publicar o calendário custa a decisão de tê-lo. Escrever a história da modalidade no estado custa vontade de reconhecer que ela sempre esteve lá. Em 2026, vinte das vinte e sete federações brasileiras ainda não tomaram a primeira dessas decisões. Mas, dá tempo!
O Observatório segue monitorando. E a pergunta que fica é para quem lê: como está o seu estado?