Diga lá Conselheiras – O que vocês esperam da Copa de 2027?

Para essa edição do boletim do Observatório convidamos nosso Conselho Consultivo para falar o que esperam da Copa do Mundo de 2027. Entre memória e futuro, as falas trazem expectativas e cobranças: legado estrutural para a base e para as pioneiras das periferias, reconhecimento histórico das mulheres que resistiram à proibição e políticas públicas efetivas que garantam que o futebol feminino deixe de ser exceção e se torne parte constitutiva do “país do futebol”.

Dilma Mendes:

“Enquanto conselheira  e agente do desenvolvimento esportivo, encaro a Copa do Mundo de 2027 como um divisor de águas indispensável para corrigir assimetrias históricas. 

O evento mundial deve  refletir os  investimentos estruturais e infraestrutura física real para  iniciantes , base , celeiros de pioneiras  no Nordeste e em todas as regiões periféricas, considerando a interseccionalidade de raça e gênero que marca a nossa história. Não bastam projetos genéricos de que ignoram as especificidades e os entraves enfrentados por mulheres e meninas em suas trajetórias;

 O verdadeiro legado de 2027 exige políticas públicas efetivas, capazes de acolher a realidade de quem faz o esporte na base e garantir solo firme para o avanço de suas carreiras.”

Fiorela Bugatti (Museu do Futebol):

“Nós, do Museu do Futebol, estamos muito entusiasmadas com a realização da décima edição da Copa do Mundo Feminina da FIFA. O fato de o Brasil sediar o evento evoca inevitavelmente o passado da modalidade no país. A despeito da proibição de praticarem futebol, algo que durou quase quatro décadas, as mulheres resistiram, lutaram e, mais do tudo, amaram esse esporte. Quantas não sonharam com o momento vivido hoje?

Há mais de dez anos, o Museu tem reafirmado seu papel como espaço de preservação e valorização dessa história trilhada por elas dentro e fora dos gramados. Como instituição de memória, seguiremos no nosso compromisso de coletar, registrar e comunicar toda essa trajetória para diferentes públicos, buscando a sua sensibilização. Afinal, se o Brasil se afirma mundialmente como o “país do futebol”, precisamos que todas e todos abracem o futebol feminino!

Também esperamos aproveitar este momento para transformar o Museu em um lugar de encontro e celebração do futebol de mulheres. Para além de exibir jogos e torcer pela Seleção, continuaremos a promover debates sobre diferentes aspectos da modalidade, a fim de projetar um futuro mais bem estruturado. Ansiamos que os sonhos das meninas de hoje saiam do campo da fantasia e tenham espaço para se tornarem realidade.”

Leda Costa:

A realização da Copa do Mundo Feminina de Futebol no Brasil, em 2027, representa muito mais do que a oportunidade de sediar uma grande competição esportiva. Para o país que construiu parte significativa de sua identidade em torno da ideia de ser o “país do futebol”, o torneio pode constituir um importante momento de reparação histórica às mulheres que, durante décadas, tiveram sua participação no futebol interditada, desvalorizada ou invisibilizada.

As expectativas em torno da Copa ultrapassam, portanto, o desempenho da seleção brasileira. Espera-se que o evento contribua para a construção de condições mais dignas e permanentes de trabalho para mulheres que atuam como jogadoras, técnicas, árbitras, jornalistas, pesquisadoras, gestoras e em tantas outras funções relacionadas ao futebol. Trata-se de pensar o legado da competição para além dos estádios: ampliar investimentos, fortalecer estruturas profissionais, garantir direitos e consolidar espaços de atuação para as mulheres no futebol.

Há também uma dimensão simbólica fundamental. Que ser jogadora de futebol possa integrar o repertório de sonhos possíveis de milhares de meninas brasileiras. Que elas possam se reconhecer nas atletas, ocupar campos e arquibancadas e imaginar para si diferentes futuros no esporte. A Copa de 2027 pode, assim, representar uma oportunidade de transformar visibilidade em permanência, celebração em política pública e conquista esportiva em legado social.

Mais do que uma Copa do Mundo, espera-se que 2027 seja um marco para que o futebol brasileiro reconheça a história das mulheres que o construíram, enfrente as desigualdades ainda existentes e assegure que o futebol de mulheres não seja tratado como exceção, mas como parte constitutiva do próprio “país do futebol”.

Silvana Goellner:

“Pioneiras: reinscrever na história quem abriu caminhos

A Copa do Mundo de 2027 está chegando e, com ela, ganham força muitas questões que atravessam o futebol de mulheres. Entre elas, uma se impõe: o reconhecimento da geração que abriu caminhos para que o futebol se tornasse uma possibilidade e um direito. Falo, mais especificamente, das jogadoras que estiveram em campo durante o período da proibição e nos primeiros anos que sucederam a regulamentação da modalidade, em 1983.

O termo pioneiras tem sido utilizado em diferentes contextos e, como categoria política, produzido múltiplos desdobramentos. Mas, afinal, pioneirismo em quê? Na Seleção? Nos jogos internacionais? Nos campeonatos estaduais? Nas competições promovidas pelas instituições oficiais? Nos clubes? Nos campos de várzea? Não há dúvidas de que muitas mulheres enfrentaram barreiras visíveis e invisíveis, inaugurando modos de ocupar o futebol em suas muitas dimensões. Cada uma delas merece ser reconhecida na singularidade de sua trajetória, de sua resistência e de suas lutas. Mas essa conquista não é individual. É coletiva. É feita de muitas jogadoras, muitos campos, muitos jogos e muitas histórias que, durante muito tempo, permaneceram à margem dos registros oficiais.

A proximidade da Copa do Mundo tem feito com que várias dessas mulheres voltem a falar sobre o que fizeram, sobre suas histórias, seu empenho e sua dedicação ao futebol em um tempo em que estar não era incentivado, reconhecido ou legitimado.

Reivindicar esse reconhecimento é também romper com o apagamento. É olhar para o passado e perceber que, antes de haver estádios cheios, transmissões, contratos e grandes competições, houve mulheres que insistiram em estar em campo. Mulheres que abriram brechas onde havia interdições e fizeram do futebol também um lugar possível para si e para outras.

Espero que os órgãos oficiais, as entidades reguladoras do futebol, as associações e os clubes acolham esse movimento e cumpram aquilo que ainda não foi efetivado. Porque, quando uma história é novamente silenciada, não se apaga apenas uma memória: apagam-se sujeitos, trajetórias e direitos. Que a Copa de 2027 seja também um tempo de lembrar. De reconhecer. De devolver à história os nomes e as vozes de quem, muito antes de o futebol de mulheres ocupar os grandes palcos, já estava em campo abrindo caminhos para que hoje pudéssemos estar aqui.”

Soraya Barreto:

“Como pesquisadora, presidenta da Rede de Mulheres Pesquisadoras de Futebol e conselheira do Observatório do Futebol Feminino, encaro a Copa do Mundo Feminina de 2027 como um divisor de águas que não pode se limitar ao espetáculo, precisamos encará-la como uma janela de oportunidade  para corrigir assimetrias históricas que estruturam o futebol de mulheres no Brasil. Os números do ciclo de preparação comprovam a escala do que está em jogo, a FIFA anunciou investimentos da ordem de 4 bilhões no torneio e o estudo encomendado pela Embratur projeta movimentação de cerca de R$ 8,8 bilhões na economia e a geração de 73,7 mil postos de trabalho. A pergunta que deve orientar o legado, portanto, não é quanto o evento movimentará, mas para quem esses fluxos de recursos reverterão, e por quanto tempo.

Defendo que esse legado seja mensurado por indicadores estruturais e infraestrutura física real destinada às iniciantes, à base e aos celeiros de pioneiras do Nordeste e de todas as regiões periféricas do país. Fortaleza e Recife estarão entre as oito cidades-sede, o que confere ao território nordestino protagonismo simbólico e logístico, mas protagonismo de palco não equivale a desenvolvimento de base. Sem políticas de fomento territorializadas, o risco que corremos é o de repetir o padrão histórico de concentração de investimentos no eixo Sul-Sudeste, reproduzindo a interseccionalidade de raça e gênero que marca a trajetória das mulheres que constroem o futebol à margem dos grandes centros, especialmente mulheres negras, indígenas e periféricas, sem acesso a campos, vestiários, transporte, bolsas e proteção trabalhista.

Projetos genéricos de “inclusão”, descolados das especificidades e dos entraves concretos enfrentados por mulheres e meninas em suas trajetórias, não bastam. O legado de 2027 exige políticas públicas efetivas e monitoráveis, com metas, orçamento vinculado e governança participativa, capazes de acolher a realidade de quem faz o esporte na base e garantir solo firme para o avanço de suas carreiras, dentro e fora do campo. Só assim transformaremos um megaevento em infraestrutura permanente, num projeto político de crescimento da modalidade.”

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