Entrevista especial: Prof. Mariane Pisani sobre a importância de radicalizar a profissionalização do futebol de mulheres.

Pergunta 1: Nos seus trabalhos você trata o futebol de mulheres como um exercício constante de resistência e negociação dentro de um campo dominado pelo poder de homens e uma estrutura machista. Quando você compara, por exemplo, a Argentina e o Brasil, cita violências em ambos, trazendo o caso da campanha do Corinthians #RespeitaAsMinas e como, para além do marketing institucional e slogans, muito pouco é feito em relação às estruturas reais, acolhimento e cuidado das mulheres no futebol, técnicas, árbitras, atletas, etc. Como poderia ser diferente?

Uma questão que atravessa minhas pesquisas há bastante tempo é justamente a compreensão de que a presença das mulheres no futebol não pode ser pensada apenas como uma história de conquista progressiva de espaços. Quando realizei minha pesquisa sobre mulheres das classes populares que jogavam futebol no Brasil, e posteriormente quando ampliei esse olhar para pensar Brasil e Argentina, fui percebendo que estar no futebol significa negociar permanentemente com estruturas que historicamente foram construídas por homens e para homens.

E isso aparece em diferentes dimensões. Aparece no acesso aos campos, nos investimentos, nas condições de treinamento e profissionalização, mas também nas relações cotidianas, nas formas de reconhecimento, nas violências e na própria legitimidade das mulheres enquanto sujeitos capazes de produzir conhecimento sobre futebol. Não estamos falando apenas das jogadoras. Estamos falando de técnicas, árbitras, dirigentes, jornalistas, pesquisadoras, torcedoras e tantas outras mulheres que ocupam esse universo.

Por isso, campanhas como a #RespeitaAsMinas são interessantes também pelas contradições que revelam. Existe uma diferença importante entre incorporar a linguagem da igualdade de gênero — algo que hoje também possui valor institucional, midiático e mercadológico — e transformar efetivamente as relações de poder dentro dos clubes e das instituições esportivas. Uma campanha pode produzir visibilidade e ter efeitos positivos, mas ela não substitui políticas permanentes de prevenção das violências, canais independentes e seguros de denúncia, protocolos de acolhimento, responsabilização dos agressores e, sobretudo, presença efetiva de mulheres nos espaços onde as decisões são tomadas.

Então, quando me perguntam “como poderia ser diferente?”, penso que precisamos deslocar a questão da inclusão para a transformação institucional. Não basta inserir mulheres em uma estrutura que permanece organizada segundo valores, práticas e hierarquias profundamente masculinizadas. É preciso perguntar quem administra o futebol, quem controla seus recursos, quem estabelece suas regras, quem ocupa os cargos de poder e, principalmente, quem é escutado quando uma violência acontece.

Há também uma dimensão do cuidado que considero fundamental. Muitas vezes exigimos que as próprias mulheres que sofreram violência sejam aquelas que denunciem, enfrentem as instituições e produzam mudanças. Isso cria uma espécie de sobrecarga da resistência: além de sobreviver naquele espaço, elas precisam transformá-lo. Uma estrutura realmente comprometida com a igualdade não pode depender permanentemente da coragem individual das mulheres para funcionar.

Brasil e Argentina têm trajetórias diferentes, inclusive em relação à organização política das jogadoras e aos processos de profissionalização do futebol de mulheres, mas minhas pesquisas mostram que existem questões estruturais que atravessam os dois contextos. Em ambos, as mulheres vêm disputando não somente o direito de jogar futebol, mas o direito de decidir sobre ele e de construir outras formas de habitá-lo.

Talvez seja esse o ponto que mais me interessa antropologicamente: resistência não significa apenas permanecer onde historicamente disseram que você não deveria estar. Ela também pode significar transformar esse espaço. E, para que essa transformação deixe de depender exclusivamente da resistência cotidiana das mulheres, precisamos passar dos slogans para estruturas concretas de redistribuição de poder, recursos, reconhecimento e cuidado.

Pergunta 2: É bem interessante como você faz um trabalho de busca histórica de alguns times de mulheres no Brasil. Entre eles os times do Recife nos anos 80 “Coisinha do Pai”e “Coração de Leão”(Ligado ao Sport de Recife). Nessa pesquisa relata que existia uma defesa das jogadoras como “graciosas”e “delicadas”. Como, sob a ótica feminista, essa dinâmica recifense, encontrada também em outros locais no Brasil, pode ser entendida? Que estratégias do passado nos ajudam a enxergar as barreiras invisíveis que as atletas brasileiras ainda precisam negociar discursivamente hoje em dia?”

 Recuperar histórias como as do Coisinha do Pai e do Coração de Leão, no Recife dos anos 1980, uma das coisas que interessa é justamente perceber que a presença das mulheres no futebol não significava necessariamente uma ruptura imediata com as normas de gênero. Muitas vezes, para que essas mulheres pudessem jogar, era preciso produzir discursivamente uma espécie de garantia: elas jogavam futebol, mas continuavam sendo “graciosas”, “delicadas”, femininas.

Sob uma perspectiva feminista, isso é muito significativo. Precisamos lembrar que o futebol praticado por mulheres havia sido oficialmente proibido no Brasil durante décadas. O Decreto-Lei nº 3.199, de 1941, estabeleceu restrições à participação feminina em esportes considerados incompatíveis com sua “natureza”, e essa interdição foi posteriormente regulamentada, incluindo explicitamente o futebol, até sua revogação no final dos anos 1970. Portanto, quando essas equipes aparecem nos anos 1980, estamos falando de mulheres entrando em um campo que acabara de sair de um longo período de interdição institucional. A possibilidade de jogar não significava que os discursos que sustentaram aquela proibição tivessem desaparecido. Eles continuavam organizando aquilo que era considerado um corpo feminino legítimo.

É nesse contexto que palavras como “graciosas” e “delicadas” precisam ser compreendidas. Elas funcionavam quase como uma negociação simbólica: essas mulheres podiam ocupar um espaço socialmente identificado como masculino desde que sua feminilidade permanecesse reconhecível. O futebol poderia ser praticado, mas não deveria produzir mulheres excessivamente fortes, masculinizadas ou desviantes em relação às expectativas sociais sobre seus corpos e suas sexualidades.

E aqui existe uma questão que considero particularmente importante: não devemos interpretar essas mulheres simplesmente como submissas a esses discursos. Há agência e estratégia nessas negociações. Em determinadas circunstâncias, performar uma feminilidade considerada aceitável podia ser também uma maneira de conquistar espaço, permanecer no futebol, conseguir apoio familiar, circular publicamente e reduzir a resistência social à presença feminina nos campos. O problema é que essa possibilidade tinha um preço: algumas formas de ser mulher tornavam-se mais aceitáveis do que outras.

É justamente aí que passado e presente se encontram. Hoje não se exige necessariamente que uma jogadora seja descrita como “graciosa” ou “delicada”, mas continuam existindo mecanismos de vigilância sobre os corpos das atletas. A aparência, a sexualidade, a roupa, a maneira de falar, a maternidade, a expressão de gênero e até a forma como uma atleta comemora ou protesta podem ser submetidas a um escrutínio que não incide da mesma maneira sobre os homens.

Por isso, gosto de pensar essas barreiras como fronteiras móveis. Elas se transformam historicamente. Algumas desaparecem, outras mudam de linguagem. Se nos anos 1980 era necessário afirmar “elas jogam futebol, mas continuam femininas”, hoje podemos encontrar discursos aparentemente mais modernos que valorizam a atleta desde que ela também seja bonita, comercialmente interessante, heteronormativamente legível ou adequada às expectativas de patrocinadores, clubes e redes sociais.

A pesquisa histórica é importante justamente porque permite desnaturalizar o presente. E aqui queria destacar a qualidade das pesquisas realizadas pela companheira Caroline Soares de Almeida. Carol nos mostra que quando encontramos essas estratégias no passado, percebemos que muitas das negociações que as atletas fazem hoje não surgiram agora. Elas fazem parte de uma história muito mais longa de controle dos corpos das mulheres no esporte.

Então, talvez uma pergunta importante seja: por que uma mulher ainda precisa provar alguma coisa além da sua competência esportiva para ter legitimidade no futebol? Quando colocamos a questão dessa maneira, percebemos que a luta das mulheres não foi somente pelo direito de entrar em campo. Ela continua sendo também pelo direito de estar nesse campo sem precisar negociar permanentemente sua feminilidade, sua sexualidade e a legitimidade do seu próprio corpo.

Pergunta 3: Na década de 1980, o entrave para as mulheres jogarem vinha de forma explícita através de proibições e vetos das federações. Hoje, sob a ótica feminista, quais são as principais dificuldades e barreiras institucionais que as federações ainda impõem à modalidade? Como você avalia que o controle político dessas entidades, muitas vezes negligenciando calendários estruturados, fomento de base e direitos trabalhistas, continua a silenciar o potencial de agenciamento das atletas e a manter o futebol feminino em uma posição de subordinação velada?

Na década de 1980, as barreiras eram muito mais explícitas: as mulheres estavam saindo de um longo período de proibição e ainda enfrentavam vetos institucionais para jogar. Hoje, essas barreiras assumem outras formas. Em minhas pesquisas sobre futebol de mulheres no Brasil e na Argentina, tenho observado justamente como a desigualdade passa a ser produzida também pela precariedade das estruturas.

Calendários curtos ou descontínuos, pouco investimento nas categorias de base, contratos frágeis, diferenças nas condições de treinamento e pouca presença de mulheres nos espaços de decisão não são apenas problemas de gestão. São questões políticas e de gênero. Afinal, quem controla os recursos e decide quais modalidades merecem investimento também define quais carreiras podem efetivamente existir.

Mas eu evitaria dizer que isso simplesmente silencia o agenciamento das atletas. As jogadoras têm produzido respostas importantes: organizam-se, denunciam desigualdades, reivindicam direitos e pressionam as instituições. Na Argentina, por exemplo, a mobilização das futebolistas foi fundamental para o processo de profissionalização iniciado em 2019.

Então, talvez a principal mudança seja esta: antes, dizia-se explicitamente que as mulheres não podiam jogar; hoje, elas podem jogar, mas ainda precisam disputar as condições para permanecer, trabalhar e decidir dentro do futebol. A desigualdade se tornou menos explícita, mas continua profundamente institucionalizada.

Pergunta 4: Temos uma grande distância entre o que se considera profissional e amador no futebol de mulheres. Muita gente ainda reconhece, inclusive, o futebol de mulheres como uma categoria amadora no geral. De que maneira essas definições entre amador e profissional atrasam e sabotam a real trajetória de profissionalização e o reconhecimento do futebol feminino como um ofício no país?



Essa fronteira entre amador e profissional foi uma questão central nas minhas pesquisas entre 2014 e 2018, porque ela não diz respeito apenas à existência ou não de um contrato, mas também a quais práticas são reconhecidas socialmente como trabalho.

Durante muito tempo, as mulheres treinaram, competiram e organizaram suas vidas em função do futebol, mas continuaram sendo tratadas como amadoras. Essa classificação ajuda a naturalizar a precariedade: salários baixos, contratos frágeis, ausência de direitos e estruturas inadequadas acabam sendo entendidos como parte “normal” da modalidade.

Um marco importante ocorre a partir de 2019, quando as regras de licenciamento da CONMEBOL passam a exigir dos clubes masculinos determinadas estruturas voltadas ao futebol de mulheres. Isso ampliou a presença institucional das equipes, mas não significou, necessariamente, condições efetivas de profissionalização.

Um exemplo muito significativo aconteceu na Libertadores Feminina de 2024. Mesmo sendo campeãs, as jogadoras do Corinthians publicaram um vídeo denunciando as condições oferecidas pela própria CONMEBOL durante a competição: campos ruins, risco de lesões, jogos a cada três dias, limitações no número de atletas inscritas, pouca divulgação e estruturas precárias. Ou seja, temos uma entidade que exige a existência das equipes femininas, mas que ainda reproduz condições muito desiguais na organização de sua principal competição continental.

Por isso, profissionalizar não significa apenas criar uma equipe ou assinar contratos. Significa reconhecer o futebol como ofício e garantir condições para que essas mulheres possam construir carreiras com direitos, continuidade, estrutura e remuneração. O amadorismo, nesse sentido, não é apenas uma categoria: muitas vezes ele funciona como justificativa para a precarização do trabalho das mulheres.

 Pergunta 5: Não é novidade que as mulheres sejam tratadas como o elemento pacificador do futebol nas arquibancadas. Nos seus estudos desde 1990 você encontrou esses relatos de que mulheres e crianças evitam a violência nos estádios. Como você enxerga o desafio das torcidas organizadas de mulheres para romper com esse papel de ‘pacificadoras’ ou de ‘enfeite de arquibancada’ e se afirmarem como sujeitos políticos, autônomos e genuinamente vibrantes no futebol? Como construir estratégias reais de engajamento, acessibilidade urbana e fidelização que transformem o engajamento do futebol de mulheres em um hábito sustentável no país e assim lotar arquibancadas das partidas tanto com homens quanto mulheres?

Ao recuperar discursos e registros produzidos desde os anos 1990, encontramos com frequência essa ideia de que a presença de mulheres e crianças tornaria os estádios mais seguros e “familiares”. Sob uma perspectiva feminista, isso é bastante problemático, porque atribui às mulheres uma função de cuidado e pacificação. Elas aparecem na arquibancada não necessariamente como torcedoras, mas como instrumentos para controlar o comportamento dos homens.

As torcidas organizadas de mulheres rompem justamente com essa representação. Essas mulheres não querem estar no estádio para pacificar ninguém. Elas cantam, xingam, criam faixas, disputam narrativas, reivindicam direitos e constroem pertencimento clubístico. Ou seja, são sujeitos políticos e torcedores, e não “enfeites” da arquibancada.

No futebol de mulheres, existe ainda outro desafio: transformar grandes públicos ocasionais em presença continuada. Para isso, não basta convocar a torcida apenas para finais ou grandes jogos. É preciso calendário previsível, divulgação, preços acessíveis, transporte público, horários seguros e adequados e utilização de estádios que sejam acessíveis à população. Ir ao estádio também é uma questão urbana e de gênero: horário, localização e transporte interferem diretamente sobre quem consegue frequentá-lo.

A fidelização acontece quando assistir ao futebol de mulheres deixa de ser tratado como um evento excepcional e passa a fazer parte da cultura torcedora. E isso envolve homens e mulheres. O objetivo não deveria ser construir um futebol “para mulheres”, mas fazer com que o futebol praticado por mulheres seja reconhecido simplesmente como futebol, capaz de produzir paixão, rivalidade, memória, pertencimento e arquibancadas vibrantes.

Mariane Pisani

Professora da UFPI e coordenadora do Grupo de Pesquisa do ANTROPOS. Editora-chefe na Revista Novos Debates (Associação Brasileira de Antropologia). Vice-coordenadora do INCT Estudos do Futebol Brasileiro e bolsista produtividade do CNPq. Doutora em Antropologia pela USP com pós-doutorada em Ciências Sociais na Universidad de Buenos Aires. Pesquisa em Antropologia das Práticas Esportivas, Urbana, Audiovisual e Estudos de Gênero e Sexualidade.

https://orcid.org/0000-0001-6925-4912

Para continuar lendo vejam mais pesquisas de Mariane Pisani:

Apresentação do dossiê. O futebol como um fenômeno sociocultural: análises etnográficas e reflexões contemporâneas. 

Gênero da Bola: futebol e poder no Brasil e na Argentina

Resistência, interseccionalidade e fontes documentais jornalísticas: preenchendo lacunas no futebol de mulheres

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