O peso do preconceito nas chuteiras das mulheres

Diversos esportes são praticados profissionalmente por homens e mulheres: tênis, vôlei, basquete, rugby, natação, atletismo, ginástica, lutas e tantas outras modalidades. É certo que podemos discutir diferenças de audiência, investimento e popularidade, mas a existência de modalidades femininas nesses esportes raramente é tratada como uma ameaça à masculina.

O futebol, no entanto, apresenta uma particularidade. Parte das reações ao futebol feminino ultrapassa a crítica esportiva e assume um discurso de posse e exclusão, revelando a misoginia que move tais opiniões: “futebol é coisa de homem”, “mulher não sabe jogar”, “ninguém quer assistir”, “não deveria receber o mesmo espaço”, “lugar de mulher é no fogão”.

Recentemente, com os anúncios envolvendo a preparação para a Copa de 2027, estamos testemunhando cotidianamente uma enxurrada de comentários em postagens nas redes sociais de homens que não medem palavras para expressar pública e explicitamente a visão de que futebol é território masculino. Não querem a suspensão do calendário de jogos masculinos durante a copa, desqualificam a realização das partidas nos estádios-sede, são contra a transmissão dos jogos nas emissoras de TV, para além de outros comentários de cunho machista e violento. 

Mas, a pergunta que salta aos olhos é: por que incomoda tanto as mulheres jogarem futebol? Se homens e mulheres jogam vôlei, tênis, basquete, rugby e tantas outras modalidades esportivas , por que uma parcela dos homens reage à presença das mulheres no futebol como se elas estivessem ocupando um espaço que não lhes pertence?

A história ajuda a explicar, embora não justifique. Nas décadas de 1920 e 1930, a mídia brasileira noticiava a existência de muitos jogos entre times de mulheres. Os jornais elogiavam a competência das jogadoras e destacavam a presença das mulheres nos gramados. Na década de 1940, com o avanço do movimento higienista e moralizador, jornais passaram a criticar o futebol feminino, alegando que não seria adequado ao corpo das mulheres e nem à maternidade. Em 1941, o presidente Getúlio Vargas cede aos apelos e publica o Decreto-Lei nº 3.199, que proibia mulheres de praticarem esportes considerados “incompatíveis com sua natureza”, incluindo o futebol. A partir daí, teve início uma verdadeira perseguição aos times de mulheres: partidas foram encerradas pela polícia, jogadoras eram ridicularizadas e a modalidade foi empurrada para a clandestinidade.

Entre os anos 1950 e 1970, apesar da proibição, alguns times despontaram pelo país, mostrando que a paixão pelo futebol resistia mesmo diante da repressão. Em 1979 foi revogada a proibição. Os anos seguintes marcaram um período áureo do futebol feminino no Brasil, com vários times protagonizando jogos com estádios cheios por todo país com campeonatos estaduais e alguns a nível nacional, consolidando equipes competitivas e ampliando a visibilidade da modalidade. 

Em 1979 acaba a proibição, mas e o preconceito?

Esse não saiu de campo! No início do século XXI, a invisibilidade volta a ser protagonista. Muitos clubes brasileiros encerraram suas equipes e, apesar das tentativas de profissionalização, a modalidade seguiu à margem, algumas jogadoras conseguem se destacar atuando fora do país, como Marta, eleita seis vezes consecutivas como melhor do mundo pela FIFA, Formiga, Cristiane e várias outras. Mas, por aqui nada. Só retrocessos.

E entramos no século XXI com alguns avanços, como a exigência de equipes femininas em clubes; a criação de ligas de base e expansão de campeonatos nacionais; maior (mas ainda minúscula) visibilidade nas transmissões, a criação de novos marcos regulatórios e, recentemente um outro marco simbólico importante: o reconhecendo como pioneiras de atletas que representaram em copas do mundo oficias da FIFA. 

Essa longa trajetória de resistência e enfrentamento a preconceitos nos mostra que o futebol de mulheres não enfrenta apenas barreiras estruturais de audiência e financiamento, mas também uma disputa simbólica: o direito das mulheres de ocupar e transformar um espaço historicamente marcado como masculino. O preconceito que ainda hoje se manifesta em ataques e desvalorização das atletas é resultado de décadas de misoginia, exclusão e marginalização. 

O incômodo não vem do ato de jogar em si, mas do choque cultural: mulheres ocupando um espaço que foi historicamente construído como masculino. Esse desconforto é fruto de machismo estrutural, estereótipos de gênero e desigualdade histórica. Hoje, cada vez mais, o futebol feminino rompe essas barreiras, mostrando que o campo é lugar de todas e todos. 

Mesmo enfrentando essas reações, o futebol de mulheres segue se fortalecendo e ampliando espaços. Se o futebol apresentado pela Seleção Masculina não arrancou alegrias nem encantou na Copa de 2026, a Copa de 2027 sediada no Brasil e a nossa Seleção Feminina têm caminhado no sentido inverso e servido como inspiração para novas gerações de meninas, e meninos, que crescem com a perspectiva de um esporte mais igualitário. 

Se o passado insistiu em negar às mulheres o direito de jogar, o presente exige que a Copa de 2027 seja o palco da igualdade e da valorização e um  marco da conquista definitiva do espaço que pertence por direito às mulheres. Esse é um Legado cultural que precisa ficar.

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